Publicações que circulam nas redes sociais afirmam que um terremoto de grandes proporções atingirá o Brasil em setembro de 2026, mas especialistas e instituições científicas desmentem a previsão e reforçam que não existe tecnologia capaz de determinar antecipadamente data, local e magnitude exatos de um terremoto.
Uma onda de desinformação sobre um suposto “megaterremoto” no Brasil voltou a chamar atenção nas redes sociais. Vídeos e imagens compartilhados em plataformas digitais afirmam que um terremoto de magnitude 8,9 atingiria diferentes regiões brasileiras em setembro de 2026 e seria acompanhado por um tsunami de grandes proporções. Apesar do formato alarmista e da aparência de alerta oficial utilizada em algumas publicações, não existe evidência científica que sustente essa previsão. (Aos Fatos)
As versões do boato não são totalmente consistentes. Algumas peças mencionam datas diferentes, enquanto uma das versões mais difundidas aponta para 18 de setembro de 2026. Também são apresentados supostos detalhes sobre regiões atingidas, quantidade de vítimas e tamanho de um eventual tsunami. A precisão aparente dessas informações pode fazer o conteúdo parecer legítimo, mas é justamente um dos sinais de que a publicação não corresponde ao conhecimento científico atual. (Checamos)
A Rede Sismográfica Brasileira e especialistas consultados por organizações de checagem rejeitaram a alegação. Atualmente, a ciência consegue monitorar terremotos, estudar falhas geológicas e estimar probabilidades de ocorrência em determinadas regiões, mas não consegue prever com antecedência um terremoto informando simultaneamente seu dia, horário, localização e magnitude. (Aos Fatos)
Imagem usada no boato foi produzida com inteligência artificial
Um dos elementos que ajudaram a impulsionar a desinformação foi uma imagem apresentada como se fosse um painel oficial de monitoramento sísmico. Segundo a apuração do Aos Fatos, a imagem utilizada nas publicações foi gerada por inteligência artificial e não corresponde a um alerta emitido por autoridades brasileiras. (Aos Fatos)
O material tenta reproduzir características visuais associadas a sistemas de emergência, apresentando informações sobre magnitude, regiões supostamente ameaçadas e consequências do desastre. Esse tipo de construção visual pode aumentar a credibilidade aparente de conteúdos falsos porque reproduz elementos normalmente associados a comunicados técnicos ou governamentais.
O episódio também demonstra como ferramentas de inteligência artificial generativa podem ser utilizadas para produzir peças de desinformação visualmente convincentes. Um painel, documento ou imagem com aparência profissional não deve ser considerado verdadeiro apenas por seu aspecto gráfico. A origem da informação e a existência de confirmação por instituições responsáveis continuam sendo fundamentais.
Brasil pode registrar terremotos, mas cenário descrito é incompatível
O fato de a previsão ser falsa não significa que terremotos nunca ocorram no Brasil. O território brasileiro registra atividade sísmica e pequenos ou médios tremores podem ser sentidos em diferentes estados. Entretanto, existe uma diferença muito grande entre esses eventos e o cenário de magnitude 8,9 apresentado nas publicações virais.
O Brasil está localizado no interior da Placa Sul-Americana, distante das principais zonas de encontro entre placas tectônicas responsáveis pelos terremotos mais poderosos registrados no planeta. Na América do Sul, a atividade sísmica mais intensa ocorre principalmente na região dos Andes, onde a Placa de Nazca interage com a Placa Sul-Americana. (Conexão Safra – Conteúdos do Agro)
Segundo especialistas ouvidos pelo Aos Fatos, um terremoto gigantesco como o apresentado no conteúdo viral não corresponde às características geológicas brasileiras. O sismólogo Marcelo Assumpção, integrante do Centro de Sismologia da USP, rejeitou a hipótese de ocorrência de um megaterremoto dessa natureza no território brasileiro. (Aos Fatos)
Não existe tecnologia para marcar a data de um terremoto
Outro problema fundamental do boato está na suposta capacidade de prever exatamente quando o terremoto aconteceria. Mesmo países altamente expostos à atividade sísmica e que possuem sofisticadas redes de monitoramento não conseguem determinar antecipadamente o dia e horário exatos de um grande terremoto.
Sistemas modernos conseguem detectar rapidamente o início de um evento e, em determinadas circunstâncias, fornecer alguns segundos de alerta antes de ondas sísmicas mais destrutivas alcançarem determinada região. Isso é completamente diferente de prever, semanas ou meses antes, que um terremoto específico acontecerá em determinada data.
Pesquisadores também conseguem calcular riscos sísmicos com base no histórico geológico, características das falhas e outros indicadores. Essas análises trabalham com probabilidades e cenários de longo prazo, e não com previsões exatas como as apresentadas nas publicações falsas. (Conexão Safra – Conteúdos do Agro)
Como identificar esse tipo de fake news
A presença de uma data extremamente precisa para um terremoto futuro deve ser tratada como um forte sinal de alerta. Publicações que anunciam antecipadamente dia, horário, magnitude e consequências específicas de um terremoto não refletem a capacidade científica existente atualmente.
Outro cuidado importante é verificar se o suposto alerta aparece nos canais oficiais das instituições responsáveis pelo monitoramento. No Brasil, informações sobre atividade sísmica podem ser verificadas por meio da Rede Sismográfica Brasileira, do Observatório Nacional, do Serviço Geológico do Brasil e dos órgãos oficiais de Defesa Civil.
Também é recomendável desconfiar de conteúdos que utilizem linguagem extremamente alarmista, previsões de números gigantescos de vítimas ou supostos documentos oficiais sem indicar claramente a instituição responsável. A utilização de imagens geradas por IA torna essa verificação ainda mais importante.
Boato continua relevante às vésperas de setembro
Embora as principais verificações tenham sido publicadas anteriormente, a desinformação ganha especial relevância agora, em 1º de setembro de 2026, justamente porque o mês citado pelas publicações falsas começou. Isso pode fazer com que vídeos antigos, capturas de tela e mensagens relacionadas ao boato voltem a circular nas próximas semanas.
A orientação permanece a mesma: não existe previsão científica de um terremoto de magnitude 8,9 atingindo o Brasil em setembro de 2026. Também não há fundamento científico para as datas específicas apresentadas nas publicações.
O episódio serve ainda como exemplo de como conteúdos falsos relacionados a catástrofes podem combinar informações científicas verdadeiras — como a existência de terremotos — com previsões inventadas e imagens artificiais para produzir narrativas convincentes. Antes de compartilhar alertas dessa natureza, a recomendação é procurar confirmação em instituições científicas e órgãos oficiais.
Fontes:
Aos Fatos — Não há previsão de um megaterremoto no Brasil em setembro
Reuters Fact Check — É falso que fonte oficial tenha previsto terremoto de magnitude 8,9 no Brasil
AFP Checamos — É falso um alerta de mega terremoto em setembro no Brasil
Agência Lupa — É falso que exista alerta científico para “mega terremoto” no Brasil