Filme chinês considerado “ruim demais” vira meme e público começa a comprar ingressos pela zoeira

Andrea Montieri
Por Andrea Montieri

Animação independente Niu Lai começou como fracasso de bilheteria na China, mas críticas à qualidade visual, memes e comentários irônicos despertaram a curiosidade do público. O filme saiu de menos de 300 espectadores nos primeiros dias para uma arrecadação milionária e se transformou em um dos fenômenos mais improváveis do cinema chinês em 2026.

Fracasso nos cinemas vira fenômeno da internet

Uma animação chinesa que parecia destinada a desaparecer rapidamente das salas de cinema protagonizou uma das histórias mais improváveis do entretenimento em agosto de 2026. Niu Lai, título que pode ser traduzido como Here Comes the Cow (“A Vaca Está Chegando”), estreou na China em 5 de agosto e inicialmente chamou atenção não pelo sucesso, mas justamente pelo desempenho extremamente baixo e pelas críticas à qualidade de sua animação. (The Guardian)

Nos primeiros nove a dez dias de exibição, o filme havia arrecadado apenas cerca de 7,7 mil yuans e vendido menos de 300 ingressos. Para uma produção em cartaz comercialmente, os números indicavam que sua trajetória nos cinemas provavelmente seria muito curta. O cenário começou a mudar quando trechos da animação chegaram às redes sociais chinesas e internautas passaram a comentar os gráficos rudimentares, movimentos considerados pouco naturais e a narrativa incomum. (The Guardian)

O que poderia representar o golpe final acabou funcionando como uma campanha publicitária involuntária. As críticas ganharam dimensão de meme, usuários começaram a compartilhar cenas e outras pessoas ficaram curiosas para descobrir se Niu Lai era realmente tão estranho quanto diziam os comentários. Parte do público começou então a comprar ingressos justamente para participar da brincadeira e formar sua própria opinião sobre a produção. (Kursiv)

“É tão ruim assim?” leva espectadores aos cinemas

A curiosidade produzida pela repercussão negativa criou um fenômeno conhecido informalmente como “so bad it’s good” — quando uma obra considerada tecnicamente ruim acaba se tornando divertida exatamente por suas falhas. No caso de Niu Lai, essa lógica saiu das redes sociais e passou a produzir resultados concretos nas bilheterias.

Usuários do Weibo e de outras plataformas chinesas passaram a publicar trechos, comentários irônicos e criações inspiradas no filme. Em 15 de agosto, Niu Lai já estava entre os assuntos mais comentados nas plataformas, enquanto espectadores afirmavam ter comprado ingressos simplesmente para verificar pessoalmente aquilo que estavam vendo nos memes. (The Straits Times)

Os cinemas perceberam rapidamente o crescimento do interesse. Depois de perder espaço devido ao fraco desempenho inicial, a animação começou a ganhar novas sessões. A repercussão digital produziu uma inversão curiosa: quanto mais as pessoas ridicularizavam o filme, maior ficava a curiosidade de quem ainda não o tinha assistido.

Bilheteria salta de milhares para milhões de yuans

A transformação financeira foi extraordinária. Depois de arrecadar pouco mais de 7 mil yuans durante sua fase inicial, Niu Lai ultrapassou posteriormente a marca de 14,9 milhões de yuans em bilheteria, segundo números citados pela imprensa internacional nesta semana. (The Guardian)

A mudança colocou uma produção praticamente desconhecida na mesma conversa de lançamentos muito maiores que estavam disputando espectadores no mercado chinês. A imprensa internacional chegou a destacar o contraste entre Niu Lai e grandes produções estrangeiras em cartaz, incluindo The Odyssey e Spider-Man: Brand New Day. (euronews)

O crescimento é ainda mais impressionante quando comparado ao começo da trajetória comercial. A animação passou de menos de 300 ingressos vendidos para uma arrecadação milionária, impulsionada em grande parte por algo que nenhum planejamento tradicional de marketing poderia garantir: pessoas fazendo piada com o próprio produto.

Filme foi produzido por apenas duas pessoas

A história por trás de Niu Lai ajuda a explicar parte de sua aparência incomum. A produção foi realizada por Xin Yumeng e Sun Lifang, descritos pela imprensa como mãe e filho. Os dois acumularam diferentes funções durante aproximadamente cinco anos de trabalho e aparecem ligados a áreas como roteiro, direção, produção e vozes. (Cartoon Brew)

A produção também não contou com a estrutura normalmente encontrada em grandes animações comerciais. Em vez de centenas de animadores, artistas, técnicos e especialistas em efeitos visuais, o projeto foi desenvolvido essencialmente por uma dupla independente trabalhando com recursos bastante limitados.

A trama acompanha um jovem bezerro e uma cotovia em uma espécie de jornada onírica, abordando temas como coragem, amor, perseverança e sacrifício. Porém, foi muito menos a história que colocou a obra no centro da conversa nacional e muito mais a maneira peculiar como tudo aparece visualmente na tela. (Cartoon Brew)

Memes fazem publicidade que dinheiro não compraria

A trajetória de Niu Lai também virou um estudo informal sobre o poder da chamada “publicidade negativa”. Normalmente, avaliações ruins afastam consumidores. Na cultura da internet, entretanto, existe um ponto em que algo considerado extremamente estranho ou ruim pode se tornar interessante justamente por essa reputação.

Nesse processo, o espectador deixa de comprar apenas um ingresso para assistir ao filme. Ele compra a oportunidade de participar de uma conversa coletiva. Depois da sessão, pode publicar sua opinião, criar um meme, compartilhar uma cena ou simplesmente dizer aos amigos que conseguiu assistir ao filme que todo mundo estava comentando.

É uma dinâmica especialmente poderosa nas redes sociais. Quando milhares de usuários repetem a pergunta “será que é tão ruim assim?”, parte deles inevitavelmente decide descobrir a resposta. Foi exatamente essa curiosidade que ajudou Niu Lai a transformar críticas e ridicularização em uma inesperada ferramenta de divulgação. (Kursiv)

Sucesso também provoca debate na indústria

Nem todos receberam o fenômeno apenas como uma grande brincadeira. O sucesso de uma animação tão criticada levantou discussões sobre qualidade e sobre o espaço disponível nos cinemas para produções independentes. Algumas avaliações argumentam que a atenção dedicada ao filme poderia ofuscar trabalhos tecnicamente mais elaborados que não conseguem alcançar a mesma exposição.

Existe, porém, outra leitura. Em uma época em que a inteligência artificial generativa participa cada vez mais da produção de imagens e vídeos, alguns internautas demonstraram simpatia pelo caráter artesanal e imperfeito de Niu Lai. Mesmo com seus problemas técnicos, a produção representa anos de trabalho de uma equipe extremamente pequena. (The Guardian)

Essa contradição ajuda a explicar por que o fenômeno se tornou maior do que simplesmente “um filme ruim”. Para alguns, trata-se de uma produção tecnicamente problemática. Para outros, é uma curiosidade cinematográfica. E para uma parcela da internet, virou simplesmente uma enorme piada coletiva da qual todos querem participar.

Da quase retirada dos cinemas ao fenômeno viral

O caso de Niu Lai mostra como a internet pode inverter completamente o destino comercial de um produto cultural. Em circunstâncias normais, vender menos de 300 ingressos durante os primeiros dias seria um sinal quase definitivo de fracasso. Mas bastaram alguns vídeos, comentários e memes para transformar a falta de qualidade percebida pelo público em sua principal ferramenta de marketing.

Em 18 de agosto, veículos internacionais como Associated Press, The Guardian e Euronews já destacavam o caso como um fenômeno inesperado do mercado cinematográfico chinês. A história deixou de ser apenas sobre uma animação independente e passou a representar o poder das redes sociais para transformar até uma recepção extremamente negativa em atenção, curiosidade e dinheiro. (AP News)

No fim, Niu Lai conseguiu aquilo que milhares de campanhas publicitárias tentam alcançar: fazer as pessoas falarem sobre um filme e convencer outras pessoas de que precisam vê-lo. A diferença é que, desta vez, boa parte da propaganda veio de internautas perguntando, em tom de brincadeira, como uma animação poderia ser tão ruim — e comprando um ingresso para descobrir.

Fontes:

Associated Press — 18/08/2026: cobertura sobre a transformação da animação chinesa em sucesso após ser ridicularizada na internet. (AP News)

The Guardian — 17/08/2026: detalhes sobre produção, viralização, bilheteria e repercussão do filme na China. (The Guardian)

Euronews — 18/08/2026: análise do fenômeno de Niu Lai e sua disputa por atenção com grandes lançamentos. (euronews)

The Straits Times — 18/08/2026: informações sobre o crescimento da bilheteria provocado pela repercussão e curiosidade nas redes sociais. (The Straits Times)

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