A inteligência artificial já permite criar falsificações convincentes de rostos e vozes, e a Interpol alerta que esse recurso está sendo usado em golpes contra pessoas comuns. Em campanha internacional divulgada em 18 de outubro de 2026, a organização chama atenção para situações em que criminosos simulam familiares, colegas de trabalho ou parceiros para induzir vítimas a enviar dinheiro, compartilhar informações ou tomar decisões sob pressão.
Segundo a Interpol, a reprodução de uma identidade pode ser feita a partir de pequenas quantidades de conteúdo disponíveis na internet. Fotografias, vídeos e gravações de voz publicados em redes sociais podem ajudar a construir uma comunicação falsa com aparência de autenticidade, tornando mais difícil perceber que o contato não é quem afirma ser.
Golpes imitam situações do cotidiano
A campanha apresenta três vídeos curtos produzidos com inteligência artificial para demonstrar como a fraude pode se desenrolar. Em um dos exemplos, um suposto colega solicita uma transferência bancária. Em outro, um familiar pede ajuda durante uma emergência. A terceira situação envolve um relacionamento virtual que, por trás da interação aparentemente afetiva, esconde uma tentativa de golpe.
Os exemplos mostram que o risco não está restrito a celebridades, políticos ou outras figuras públicas. Qualquer pessoa que tenha imagens, vídeos ou áudios publicados na internet pode ser usada como referência para uma abordagem fraudulenta. A falsificação também pode aparecer em chamadas de vídeo, mensagens enviadas por aplicativos ou contatos que combinam voz, imagem e uma história criada para provocar reação imediata.
Entre as práticas associadas a esse tipo de crime estão propostas fraudulentas de investimento, golpes românticos, extorsão sexual e circulação de conteúdos íntimos falsificados. A combinação de tecnologia e engenharia social amplia o potencial de convencimento, porque o criminoso não depende apenas de uma mensagem genérica: ele pode tentar reproduzir a identidade e o modo de comunicação de alguém conhecido pela vítima.
Por que os sinais tradicionais já não bastam
A Interpol destaca que alguns indícios historicamente associados a fraudes digitais estão se tornando menos confiáveis. Erros de ortografia, identidade visual inconsistente e aparência amadora costumavam levantar suspeitas em mensagens falsas, mas as ferramentas de inteligência artificial podem produzir materiais mais bem elaborados e convincentes.
Isso não significa que toda chamada de vídeo ou mensagem inesperada seja uma fraude. O alerta é para que a aparência de autenticidade não seja tratada como prova suficiente. Um rosto conhecido na tela, uma voz familiar ou uma conversa com detalhes pessoais podem fazer parte de uma encenação criada para explorar confiança, urgência e medo.
Orientação é interromper a pressão e validar o contato
A recomendação central da campanha é resumida pela frase em inglês “Wait. Validate. Don’t take the bait”, traduzida como “Espere. Valide. Não caia na isca”. A orientação propõe uma pausa antes de qualquer transferência, resposta ou compartilhamento de dados, especialmente quando o pedido envolve emergência, dinheiro, conteúdo íntimo ou uma oportunidade que exige decisão imediata.
Na prática, a verificação deve ocorrer por outro canal de comunicação. Se uma pessoa conhecida pedir ajuda em uma chamada ou mensagem inesperada, o destinatário pode tentar contatá-la por um número já utilizado anteriormente ou confirmar a situação diretamente com alguém de confiança. O objetivo é não depender exclusivamente do contato que fez o pedido, já que a própria identidade pode estar sendo falsificada.
Também é importante evitar o envio impulsivo de informações pessoais, códigos, documentos ou valores enquanto a situação não estiver confirmada. A presença de imagem e voz não elimina a necessidade de checagem. Pelo contrário: quanto mais convincente for a abordagem, mais relevante se torna interromper o fluxo da conversa e buscar uma confirmação independente.
Com a campanha, a Interpol procura mostrar que as fraudes com deepfake não são apenas um problema ligado à desinformação pública ou à imitação de pessoas famosas. Elas podem aparecer em relações cotidianas e atingir usuários em ambientes domésticos, profissionais e afetivos. Para o público, a principal medida de proteção é combinar desconfiança saudável, pausa e validação antes de agir.