Funcionários chineses estão usando inteligência artificial para criar versões virtuais de chefes e pessoas de quem não gostam, colocando os personagens para andar pela tela, servir chá e até pedir desculpas. A brincadeira virou uma maneira inusitada de extravasar frustrações do trabalho, mas especialistas alertam para possíveis problemas envolvendo direitos de imagem.
Inteligência artificial vira ferramenta de zoeira no escritório
Uma tendência curiosa está chamando atenção nas redes sociais chinesas: jovens trabalhadores estão transformando seus chefes em pequenos “pets” virtuais controlados por inteligência artificial. Em vez dos antigos bichinhos digitais que simplesmente caminhavam pela área de trabalho do computador, os novos personagens podem ser personalizados para se parecer com uma pessoa real e executar ações escolhidas pelo usuário. A tendência foi destacada nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026, pelo South China Morning Post e repercutida por outros veículos internacionais. (SCMP)
A ideia mistura nostalgia dos antigos mascotes de computador com ferramentas modernas de IA generativa. O usuário pode fornecer uma imagem e instruções para que um aplicativo produza um personagem personalizado. Segundo a reportagem, também existem pessoas oferecendo serviços de customização para quem não domina as ferramentas, com valores que começam em cerca de 9,9 yuans e podem chegar a algumas centenas de yuans, dependendo do trabalho solicitado. (SCMP)
O que transformou a tendência em uma grande brincadeira foi justamente o uso desses personagens para representar chefes, colegas ou outras pessoas que irritam os usuários. Alguns trabalhadores passaram a programar seus “chefes virtuais” para realizar tarefas engraçadas ou constrangedoras, criando uma espécie de inversão digital da hierarquia existente no ambiente profissional. (NDTV)
Chefe virtual pode servir chá e pedir desculpas
Um dos exemplos que ajudaram a divulgar a brincadeira apareceu no início de agosto. Um internauta conhecido como Jiuyuechushi criou um pet virtual inspirado no bilionário Elon Musk para demonstrar o funcionamento da tecnologia. O personagem podia fazer reverências, servir chá e realizar outras ações determinadas pelo usuário. Também era possível arrastá-lo com o mouse pela tela e observar diferentes reações do avatar. (SCMP)
Outra usuária, identificada na reportagem como “Miss Reese Loves to Dream”, publicou um tutorial mostrando como transformar alguém de quem não gostava em um personagem virtual. Nesse caso, o avatar podia rastejar pela tela, ajoelhar-se e pedir desculpas. Outros usuários criaram versões de chefes capazes de reproduzir mensagens relacionadas a desejos comuns dos funcionários, como acabar com as horas extras ou conseguir aumento salarial e promoção. (SCMP)
A graça está justamente em inverter uma relação que, no mundo real, costuma ser marcada pela hierarquia. Em vez de receber ordens, o chefe digital passa a obedecer aos comandos do funcionário. Um dos comentários citados pela imprensa resume o espírito da tendência: depois de passar uma manhã estressante por causa do chefe, o trabalhador poderia “devolver o favor” usando o avatar na tela durante a tarde. (NDTV)
“Vingança digital” vira válvula de escape
O fenômeno está sendo tratado como uma espécie de “vingança digital” bem-humorada. Para alguns trabalhadores, fazer um personagem inspirado no chefe executar ações absurdas proporciona uma sensação temporária de controle sobre situações que dificilmente poderiam ser enfrentadas da mesma maneira dentro de uma empresa. A brincadeira se encaixa em uma cultura crescente de memes sobre jornadas longas, cobranças profissionais e dificuldades enfrentadas por trabalhadores mais jovens.
A tecnologia também mostra como a inteligência artificial generativa está chegando a aplicações cada vez mais simples e cotidianas. Mascotes de computador existem há décadas, mas tradicionalmente funcionavam com animações e respostas previamente programadas. Com IA, esses personagens podem ganhar aparência personalizada e comportamentos definidos por comandos, ampliando enormemente as possibilidades de interação. (SCMP)
Nem todo mundo, porém, utiliza os novos pets virtuais para fazer piadas com o chefe. Há usuários criando personagens baseados em amigos e parceiros, enquanto outros recorrem à tecnologia para preservar digitalmente a lembrança de animais de estimação que morreram. Assim, a mesma ferramenta usada para a zoeira no escritório também está sendo explorada como uma forma de companhia e memória digital. (SCMP)
Brincadeira pode trazer problemas jurídicos
Apesar do caráter humorístico, especialistas citados pela imprensa chinesa chamam atenção para os limites desse tipo de conteúdo. Quando alguém utiliza a fotografia de uma pessoa real sem autorização para criar um personagem que executa ações humilhantes ou depreciativas, podem surgir questões relacionadas aos direitos de imagem e à forma como aquela pessoa está sendo representada. (SCMP)
Esse problema ganha importância à medida que ferramentas de inteligência artificial tornam mais fácil transformar fotografias em personagens animados. Uma brincadeira mantida exclusivamente no computador pessoal tem alcance muito diferente de um vídeo publicado para milhares ou milhões de pessoas. A exposição pública do avatar pode ampliar as consequências para quem aparece representado.
A tendência chinesa, portanto, é ao mesmo tempo uma história curiosa da internet e mais um exemplo das situações inesperadas criadas pela popularização da inteligência artificial. Depois de gerar textos, vídeos, músicas e imagens, a IA agora também está ajudando trabalhadores a transformar o chefe em um pequeno personagem que anda pela tela — e, pelo menos no mundo virtual, pode finalmente receber ordens do funcionário.
Fontes:
South China Morning Post — 18/08/2026: reportagem original sobre trabalhadores chineses transformando chefes em pets virtuais de IA. (SCMP)
Ler a reportagem do South China Morning Post
NDTV — 18/08/2026: repercussão internacional da tendência dos pets virtuais personalizados. (NDTV)
Ler a reportagem da NDTV