TSE desmente boato sobre urnas eletrônicas espalhado por pré-candidato à Presidência

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez

Alegação de que sistema de votação teria ligação com a empresa venezuelana Smartmatic e com fraude eleitoral já havia sido desmentida pelo tribunal em 2017, 2020 e 2022.

Uma nova onda de desinformação sobre as urnas eletrônicas brasileiras voltou a circular depois que o pré-candidato à Presidência pelo PL, o senador Flávio Bolsonaro, afirmou a diplomatas de quase 50 países que parte dos equipamentos usados nas eleições do Brasil teria a mesma origem das urnas da empresa venezuelana Smartmatic. A declaração foi dada durante um evento em Brasília, organizado pela agência Novo Selo Comunicação em parceria com o site The Brazilian Report, quando o senador afirmou a representantes de quase 50 países que um documento da CIA mostraria que a empresa estaria envolvida em um plano de fraude do governo venezuelano em 2012. Terra

A fala rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e reacendeu um boato que já circula há anos no Brasil. O Tribunal Superior Eleitoral reforçou, no dia seguinte à declaração, que a empresa venezuelana Smartmatic não forneceu urnas eletrônicas nem softwares utilizados nos equipamentos eleitorais do país. A resposta do tribunal reacendeu o debate sobre como declarações de figuras públicas, mesmo sem provas concretas, conseguem alcançar grande audiência em pouco tempo, principalmente quando reproduzidas por veículos internacionais presentes no evento. Agência Brasil

O que diz o TSE sobre a real relação com a Smartmatic

Segundo o tribunal, a confusão criada em torno do tema tem uma origem bem definida e documentada. Em diversas oportunidades, o TSE reiterou que a empresa Smartmatic não forneceu nem fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras, tampouco trabalhou na programação desses aparelhos. A nota do tribunal também esclarece qual foi, de fato, a única relação comercial estabelecida entre as partes ao longo dos anos. Agência Brasil

De acordo com o comunicado, a empresa venezuelana chegou a firmar contratos com o TSE apenas para prestação de serviços de conexão de dados e voz, sem qualquer participação no desenvolvimento ou na operação da urna eletrônica. O texto acrescenta ainda que a Smartmatic participou da licitação para fabricação de urnas em 2020, mas perdeu o processo para a empresa Positivo, o que reforça que o equipamento usado atualmente no Brasil não tem qualquer vínculo produtivo com a companhia citada pelo senador. Esse esclarecimento não é novo: conforme destacado pela Revista Fórum, o TSE já havia desmentido publicamente essa ligação em 2017, 2020, 2022 e novamente em julho de 2026, quando foi procurado sobre a fala mais recente do senador. Agência Brasil + 2

Por que esse boato específico volta a circular com frequência

A repetição desse tipo de alegação não é coincidência. Levantamento da Agência Lupa mostra que boatos sobre fraude nas urnas eletrônicas brasileiras costumam ressurgir com força sempre que há instabilidade política em outros países da região, especialmente quando o tema eleitoral volta ao noticiário internacional. Uma busca por menções ao termo fraude na urna eletrônica identificou picos expressivos de publicações no dia seguinte a episódios de crise eleitoral em países vizinhos, mostrando como esse tipo de conteúdo é reciclado conforme o contexto político do momento. Substack

Esse padrão de reaproveitamento de boatos antigos é uma característica conhecida entre pesquisadores que estudam desinformação eleitoral. Em vez de criar uma nova narrativa, agentes políticos e páginas de conteúdo duvidoso tendem a resgatar alegações que já foram desmentidas anteriormente, apostando que parte do público não tem acesso ou não se lembra das checagens feitas em ocasiões passadas. Esse mecanismo ajuda a explicar por que o mesmo boato sobre a Smartmatic consegue voltar a circular repetidas vezes ao longo de quase uma década, mesmo diante de esclarecimentos oficiais recorrentes.

Como funciona a checagem oficial sobre o tema eleitoral

Para quem quer verificar esse e outros boatos relacionados ao processo eleitoral brasileiro, o TSE mantém um canal específico dedicado a esse tipo de esclarecimento. A página Fato ou Boato reúne verificações organizadas pela Justiça Eleitoral e já desmentiu centenas de conteúdos falsos relacionados às urnas e ao processo de votação desde seu lançamento. A ferramenta funciona como referência rápida para eleitores que recebem mensagens alarmantes por aplicativos como WhatsApp e desejam confirmar a veracidade da informação antes de compartilhar. Justiça Eleitoral

Além do canal oficial do tribunal, agências de checagem independentes como Lupa, Aos Fatos e Comprova também monitoram esse tipo de conteúdo de forma constante, principalmente em períodos que antecedem eleições. A recomendação de especialistas em combate à desinformação é sempre buscar a fonte primária da informação antes de repassar conteúdos que envolvem acusações graves contra instituições públicas, já que declarações de autoridades, mesmo quando amplamente divulgadas, não substituem a verificação factual dos dados apresentados.

O episódio envolvendo Flávio Bolsonaro reforça um alerta já conhecido entre jornalistas que cobrem o tema eleitoral: a repetição de uma informação falsa por figuras públicas não a torna verdadeira, mas pode ampliar consideravelmente seu alcance. Diante disso, o TSE segue reforçando que o processo eleitoral brasileiro é auditado por diferentes instituições e que qualquer alegação de fraude precisa ser sustentada por provas concretas, o que não ocorreu nas declarações mais recentes sobre a suposta ligação entre as urnas brasileiras e a empresa venezuelana.

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