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sexta-feira, maio 24, 2024

Deep fakes e a vulnerabilidade da mulher na internet

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A internet parece igual para homens e mulheres, certo? O programa de hoje vai discutir por que elas e não eles são as vítimas dos deep fakes, o que são deep fakes e quais os fatores que levam à objetificação da mulher nas redes sociais em pleno século 21. E, no final, é claro, a responsabilidade do Estado e das plataformas para combater o problema.

Você sabia que deep fake é uma forma de pornografia falsa? Alterar imagens para forjar a nudez de alguém é um crime já previsto no Código Penal, com pena de detenção. Mas por que as mulheres são as maiores vítimas? O que fazer quando isso acontece? E como evitar ser vítima de deep fake?

Embora não tenhamos todas as respostas, pois são bastante complexas, vamos tentar discutir alguns pontos importantes. Discutir posturas e comportamentos na internet é um campo minado. Se culpamos as mulheres por postarem fotos insinuantes, estamos perpetuando o machismo. Se advogamos por uma postura mais conservadora na rede, somos tachados de moralistas. E se sugerirmos fechar os perfis, estamos ignorando a realidade da internet pública e democrática.

O recente incidente no Colégio Santo Agostinho, da Barra da Tijuca, no Rio, destaca o uso inadequado da tecnologia, ressaltando a urgência em discutir e aprovar legislações para o uso ético da tecnologia, protegendo a privacidade e dignidade, especialmente de crianças e adolescentes.

Recentemente, eu conversei com a Vera Iaconelli (1), renomada psicanalista e autora do livro Manifesto antimaternalista (2), entre outras publicações, para tratar do colapso da maternidade e acabamos tratando também de temas como os riscos da internet para a infância e adolescência, a viralização de conteúdos negativos e a necessidade de responsabilizar as plataformas digitais pela violência e pornografia explícita.

A partir do papo com a Vera, eu posso contextualizar que a pornografia de mentira não é um fator isolado, mas reflexo de uma sociedade que traz o machismo estrutural que desvaloriza não só a mulher, mas as virtudes da sociedade, machismo que é alimentado pela impunidade na rede.

“Se a gente imaginar que a internet amplifica, mas também produz, e ela junta pessoas que nunca se uniram, então ela amplifica e cria novos discursos conservadores. A sociedade brasileira é extremamente conservadora, e a gente vai ver que a internet potencializa o pior. Para cada pessoa que pensa na justiça social, há centenas de pessoas que dizem que isso é ‘mimimi’. Na internet, você não tem a defesa do estado laico. Temos um discurso conservador e uma violência muito grande, fora das bolhas mais progressistas preocupadas com a justiça social. Por isso, ela tem que ser regulada, porque acaba propagando o pior e ninguém se responsabiliza. Eu falo anonimamente, tem fake news o tempo todo, e as crianças estão na internet. Elas têm acesso a tudo: pornografia, violência. Ainda não conseguimos regular o acesso dessa nova geração a esse tipo de conteúdo danoso, nocivo.”

Muitas pessoas são atraídas para esta rede nociva e viciante por estratégias de marketing comportamental. Não é mesmo?

Exato. Nem cocaína, nem bebidas. A droga do século é a internet, que afeta profundamente as emoções, um universo muito feminino, como explica a Vera Iaconelli:

“A relação com a internet é aditiva e ela é feita para ser aditiva, mais do que cigarro e cocaína. Ela é mais difícil de romper, pelas relações sociais que estão colocadas lá, do que todas as drogas que foram colocadas hoje. E as mulheres estão mais expostas a isso, elas lidam mais com as questões emocionais, elas se preocupam mais com o que fazer, e estão mais vigiadas neste lugar. As mulheres são mais suscetíveis e os estudos mostram que para as meninas a internet é mais nociva.”

A internet se estrutura na maldade e no conteúdo apelativo e abusivo, assim como os programas sensacionalistas das TVs.

Se as plataformas não impulsionassem conteúdo violento ou sensacionalista, as práticas criminosas como deep fakes não teriam tanta repercussão.

A Vera Iaconelli trata também dessa abordagem.

“Por enquanto, a lei da internet é a lei do ‘like’, e a lei do ‘Like’ é aquilo que for mais escatológico, mais violento e mais disruptivo. Ela não se pauta pelas boas ações, pela educação, por transmitir notícias checadas; ela se pauta pelo contrário, pelo fake. Sem regulação, ela é uma ferramenta sendo usada da pior maneira possível. Se ela for regulada, pode trabalhar pela educação a distância, por comunidades que se juntam para falar sobre o racismo, por mulheres que se unem para lutar contra a violência doméstica, por pessoas que vão aprendendo sobre cidadania na internet. Isso tudo existe, mas ela não foi feita para isso. Ela foi feita para ‘likes’ e para dar dinheiro às plataformas. O que a gente tem é que regular para depurar tudo isso e não ser refém da internet, e sim usá-la a nosso favor.”

Para terminar, lembremos que o Código Penal proíbe e pune montagens em fotos ou vídeos com objetivo de incluir pessoa em cenas de nudez ou registros íntimos. Há projetos em tramitação para criminalizar o deep fake, proibindo uso de aplicativos de inteligência artificial com essa finalidade.

Mas o problema não é apenas a tecnologia, mas sim as camadas complexas que a envolvem: a impunidade nas redes, a omissão do estado em regular, a falta de limites em uma geração que não suporta frustração, e a ausência de diálogo nas famílias sobre os malefícios da violência virtual.

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